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LIBER ALEPH

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CXI

O Livro da Sabedoria ou da Tolice

1. APOLOGIA

        EU TE engendrei, ó meu filho, e isso estranhamente, como tu sabes, da Mulher Escarlate chamada Hilarion, qual me foi misteriosamente vaticinado no Livro da Lei. Agora, pois, que chegaste à Idade da Compreensão, dá ouvido à minha Sabedoria, pois nela há um simples e direto caminho para todo homem chegar ao Fim.

        Primeiramente quero que tu saibas que experiência e perfeição espiritual não dependem necessariamente de progresso em nossa Santa Ordem. Mas para cada homem existe um caminho; há uma Constante, e há uma Variável. Busca sempre portanto em tua Obra da Promulgação da Lei descobrir em cada homem sua verdadeira Natureza.

        Pois em cada homem sua Luz Íntima é o coração de sua Estrela, isto é, Hadit; e o trabalho dele consiste em identificar-se com aquela Luz.

        Não é todo homem que é chamado à sublime Tarefa da A\A\, em que ele deve assenhorar-se por completo de todo Detalhe da Grande Obra, para que ele possa, na devida Estação, realizá-la não só para si mesmo, mas para todos que lhe estão ligados. Existem muitos para quem em sua presente Encarnação esta Grande Obra pode ser impossível; pois a tarefa que lhes é destinada no momento pode ser a liquidação de alguma Dívida Mágica, ou o Ajustamento de algum Equilíbrio, ou a Resolução de algum Defeito. Como está escrito: Suum Cuique.

        Mas, porque tu és a Criança de minhas entranhas, Eu te quero muito, ó meu filho, e Eu me esforço em meu Espírito para que por minha Sabedoria Eu possa esclarecer tua Senda diante de Ti; e por isto em muitos capítulos Eu te escreverei aquelas coisas que te podem ser úteis. Sis benedictus.

 

        2. DE ARTE KABBALISTICA

        ESTUDA com muita constância, meu filho, a Arte da Santa Qabalah. Aprende que aí as relações entre Números, se bem que elas são de grande poder e outorgam muito Conhecimento, são de valor secundário. Pois a Tarefa consiste em reduzir todas outras concepções a esta de Número, pois assim tu desnudarás a Estrutura mesma da tua Mente, cuja regra não é preconceito, mas a Necessidade. Enquanto o Universo não estiver assim despido diante de ti, tu não podes estudar-lhe bem a anatomia. As Tendências da tua Mente jazem mais fundo que qualquer pensamento, pois elas são as Condições e as Leis do Pensamento; e são estas que tu tens de reduzir a Nada.

        Este Caminho é mui seguro; mui sagrado; e seus Inimigos são mui terríveis, mui sublimes. É para as Grandes Almas o entrar neste Rigor e Austeridade; a Elas mesmo os Deuses rendem Homenagem, pois é o Caminho da Máxima Pureza.

 

3. DE VITA CORRIGENDA

        APRENDE, filho, que o verdadeiro Princípio de Auto-Domínio é a Liberdade. Pois nós nascemos em um Mundo que está escravizado a Ideais; a estes somos obrigados a nos sujeitar, quer nos sirvam quer não, tal como os inimigos de Procrustes eram adaptados à cama de Procrustes. Cada um de nós, à medida que cresce, aprende Repressão de si mesmo e de sua verdadeira Vontade. "É uma mentira, esta tolice contra si mesmo": estas Palavras estão escritas no Livro da Lei. Portanto, essas Paixões em nós mesmos que nós percebemos serem Empecilhos não são nem Arte nem Parte de nossa Verdadeira Vontade; mas são Apetites doentios, condicionados em nós por falso Treino em nossa meninice. Assim, os Tabus de Tribos selvagens contra o Amor reprimem aquele Verdadeiro Amor que nasce em nós; e através desta Repressão vem Doenças do Corpo e da Mente. Ou a Força da Repressão nos vence, e cria Neuroses e Insanidades; ou a Revolta contra aquela Tirania, irrompendo com violência, causa Extravagâncias e Excessos. Tudo isso são Desordens, e contra a Natureza. Agora então aprende de mim o Testemunho da História e da Literatura, como um grande Pergaminho de Conhecimento. Mas o Pergaminho é de Pele Humana, e a Tinta com que está escrito é o nosso próprio Sangue.

 

4. LEGENDA DE AMORE

        O DEFEITO, que é Fatalidade, no Amor, como toda outra Forma de Vontade, é a Impureza. Não é a Espontaneidade do Amor que provoca Desgraça, mas alguma Repressão no Ambiente.

        Na Fábula de Adão e Eva é esta grande Lição ensinada pelos Mestres da Santa Qabalah. Pois o Amor que era para eles o eterno Éden, exceto pela Repressão simbolizada pela Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Assim, a Natureza Amorosa deles era perfeita; foi sua Queda daquela Inocência que os expeliu do Jardim.

        No Amor de Romeu e Julieta não havia Defeito; mas Feudo entre famílias, que nada tinha a ver com aquele Amor, foi sua Maldição; e a Imprudência e Violência da Revolta deles contra aquela Repressão os matou.

        Na pura Espontaneidade do Amor de Desdemona por Otelo não havia Defeito; mas o Amor dele estava minado pela Consciência que ele tinha de sua Idade e de sua Raça, dos Preconceitos de seus Semelhantes e sua Experiência pessoal da Infidelidade feminina.

 

5. GESTA DE AMORE

        AGORA, tal como a Literatura está cheia dos Assassinatos de Amor, assim também a História, e a Lição é sempre a mesma.

        Assim, os Amores de Abelardo e Heloísa foram destruídos pelo Sistema de Repressão no qual por acaso eles viviam.

        Assim, Beatriz foi roubada de Dante por Artificialismo da convenção social, e Paolo foi morto por causa de coisas que nada tinham a ver com seu Amor por Francesca.

        Por outro lado, Martin Luther, sendo um Gigante de Vontade, e também o Oitavo Henrique da Inglaterra, como um grande Rei, se lançaram a revolucionar o Mundo inteiro para satisfazerem seus Amores.

        E quem os seguirá? Pois mesmo agora nós vemos grandes Eclesiásticos, Estadistas, Príncipes, Dramaturgos, e muitos Homens menores, completamente vencidos e arruinados pelo Conflito entre as suas Paixões e a Sociedade que os cerca. Nisto, quem erra não tem Importância para nosso Pensamento; mas a Existência do Conflito é Evidência de Atentado contra a Natureza.

 

6. ULTIMA THESIS DE AMORE

        PORTANTO, ó meu Filho, sê prevenido, não te curvando diante dos falsos Ídolos e Ideais, entretanto não flamejando em Fúria contra eles a não ser que tal seja tua Vontade.

        Mas neste assunto sê prudente e sê silente, discernindo sutilmente e com Agudeza a natureza da Vontade dentro de ti; para que não tomes Medo por Castidade, ou Cólera por Coragem. E como os Grilhões são pesados e antigos, e teus Membros estão torcidos e engelhados pela Compulsão deles, caminha, tendo-os quebrado, gentilmente por algum tempo, até que a antiga Elasticidade retorne, e tu possas andar, correr e pular naturalmente e com Regozijo.

        Também, como esses Grilhões são uma Prisão quase universal, declara instantemente a Lei de Liberdade, e toda Verdade que concerne a este Assunto; pois se nisto apenas tu venceres, a Terra inteira será livre, tomando seu Prazer à Luz do Sol sem Medo nem Delírio. Amem.

 

7. DE NATURA SUA PERCIPIENDA

        COMPREENDE, ó meu Filho, em tua Juventude, estas Palavras que algum Sábio, hoje anônimo, disse no passado: a não ser que vos torneis como Criancinhas, de forma alguma entrareis no Reino dos Céus. Isto quer dizer que tu deves primeiro compreender por completo tua Natureza original, tal qual esta era antes de te forçarem a te curvares diante dos Deuses de Madeira e Pedra que os Homens fizeram na sua incompreensão da Lei de Mudança, da Evolução através de Variação, e do Valor independente de toda Alma Vivente.

        Aprende também isto: que mesmo a Vontade para a Grande Obra pode ser mal compreendida pelos Homens, pois esta Obra deve proceder naturalmente e sem Esforço, como todos os Trabalhos verdadeiros. Também é certa aquela Palavra que o Reino dos Céus sofre Violência, e que os violentos o tomam pela Força. Mas a não ser que sejas violento em Virtude de tua verdadeira Natureza, como o tomarás tu? Não sejas como o Asno na Pele de Leão; mas se tu nasceste Asno, carrega pacientemente tuas Cargas, e saboreia teus Espinheiros; pois também um Asno, como nas Fábulas de Apuleius e de Matthias, pode chegar à glória pelo Caminho de sua própria Virtude.

 

8. ALTERA DE VIA NATURAE

        DIZES tu (creio Eu) que eis aqui um grande Enigma, desde que por causa de muita Repressão tu perdeste o Conhecimento de tua Natureza original?

        Meu Filho, não é assim; pois por uma particular Ordem do Céu, e uma Disposição oculta dentro da Mente, está todo homem protegido contra esta Perda de sua própria Alma, contanto que ele não seja por Choronzon desintegrado e dispersado além do poder da Vontade de reparar os danos, como quando o Conflito dentro dele, rasgando e queimando, tornou-lhe a Mente completamente deserta, e sua Alma Loucura.

        Escuta, ouve atentamente; a Vontade não foi perdida, se bem que esteja enterrada sob o Monturo das Repressões de uma vida inteira; ela persiste vital dentro de ti (não é ela o verdadeiro Movimento do teu Ente mais íntimo?), e apesar de toda repressão consciente vem à Noite de mansinho em Sonhos e Fantasias. Ora ei-la nua e brilhante, ora ei-la vestida em ricos Trajes de Símbolo e Hieróglifo; mas sempre viaja contigo em teu Caminho, pronta a te familiarizar com tua verdadeira Natureza, se tu escutares sua Palavra, seu Gesto, ou seu Espetáculo de Imagens.

 

9. QUO MODO NATURA SUA EST LEGENDA

        NÃO julgues portanto que tua mais pequena Fantasia é insignificante; ela é uma Palavra que te é dirigida, uma Profecia, um Signo ou Sinal que te vem de teu Senhor. Teus atos mais espontâneos são Chaves da Tesouraria do teu Palácio, que é a Casa do Espírito Santo. Considera bem teus Pensamentos e Atos conscientes, pois eles estão sob o Domínio da tua Vontade consciente, e são movidos de Acordo com a Operação da tua Razão; em verdade isto é um Trabalho necessário, habilitando-te a compreender de que maneira tu podes te ajustar ao teu Ambiente. Mas esta Adaptação em sua maior Parte é apenas Defesa, ou quando muito Subterfúgio e Estratagema na Luta pela Vida, tendo apenas uma Relação acidental e acessória com tua verdadeira Vontade, da qual em teu Consciente e tua Razão tu podes ser ignorante, a não ser que por Sorte grande e rara tu estejas já harmonizado em ti mesmo, o Externo com o Interno; uma Graça que não é comum entre os Homens, e é a Recompensa de Consecução prévia.

        Não negligencies portanto a simples Introspecção; mas dá maior atenção ainda àqueles Sonhos e Fantasias, àqueles Gestos e Maneiras inconscientes e de Causa indescoberta, os quais são indícios de Ti.

 

10. DE SOMNIS a) Causa per Accidens

        ASSIM como todas as Doenças tem duas Causas Conjugadas, uma imediata, externa e excitante, a outra constitucional, interna e predisponente, assim também é com os Sonhos, que são Distúrbios, ou Estados de desequilíbrio, do Consciente; Perturbadores do Sono como os Pensamentos são da Vigília.

        A Causa externa e excitante dos Sonhos é comumente de dois tipos: videlicet, em primeiro lugar, a Condição física do Adormecido; como um Sonho de Água é causado por uma Chuvarada lá fora, ou um Sonho de Estrangulamento é causado por uma Dispnéia, ou um Sonho de Volúpia é causado pelas Congestões seminais de uma Vida impura, ou um Sonho de queda ou de vôo é causado por algum Equilíbrio instável do Corpo.

        Segundo, o Estado psíquico do Adormecido; o Sonho sendo determinado por recentes Acontecimentos da Vida dele, em geral aqueles do Dia prévio, e especialmente Acontecimentos que tenham causado Excitação ou Ansiedade, tanto mais quanto tais Acontecimentos estejam inacabados ou irrealizados.

        Mas esta Causa excitante é de Natureza superficial, qual um Manto ou uma Máscara; e assim apenas empresta Aspecto àquela outra Causa constitucional, que jaz na Natureza mesma do Adormecido.

 

11. DE SOMNIIS b) Causa per Naturam

        A ÍNTIMA, constitucional, ou predisponente Causa de Sonhos está sob a jurisdição da Vontade mesma. Pois aquela Vontade, estando sempre presente, se bem que (talvez) latente, desvela-se quando não mais inibida pelo Controle consciente, que é determinado apenas pelo Ambiente, e portanto muitas vezes é contrário a ela. A Vontade se declara, como que num Espetáculo, e se mostra assim disfarçada ao Adormecido, como um Aviso ou uma Admoestação. Todo sonho, ou Espetáculo de Fantasia, é portanto uma Mostra da Vontade; e a Vontade, não mais sendo impedida pelo Ambiente ou pela mente consciente, vem como um Conquistador. Mesmo assim, geralmente ela tem que vir sentada na Carruagem da Causa excitante do Sonho, e portanto sua Aparição é simbólica, como uma Escrita em Cifra, ou como uma Fábula, ou como um Enigma em Desenhos. Mas sempre ela triunfa e se cumpre nisso pois o Sonho é uma Compensação natural no Mundo interno por qualquer Fracasso de Consecução no externo.

 

12.DE SOMNIIS c) Vestimenta Horroris

        MAS ENTÃO, se num Sonho a Vontade triunfa sempre, como é que um Homem pode ser vítima do Pesadelo? Disto a verdadeira Explicação é que num tal caso a Vontade está em Perigo, tendo sido atacada e ferida, ou corrompida pela Violência de alguma Repressão. Portanto a Consciência da Vontade é dirigida ao Ferimento, como na Dor, e busca Conforto em uma Externalização, ou Representação, daquele Antagonismo. E como a Vontade é sagrada, tais Sonhos excitam um Êxtase ou Frenesi de Horror, Medo ou Desgosto. Assim, a verdadeira Vontade de Oedipus era para a cama de Jocasta; mas o Tabu, forte tanto por Hereditariedade quanto por Ambiente, estava tão grudado àquela Vontade que seu Sonho concernente ao seu Destino foi um Sonho de Medo e Repugnância, o Cumprimento desse Sonho (mesmo em Ignorância) foi um Encantamento capaz de agitar todas as Forças subconscientes do Povo em volta dele, e sua Realização Consciente do Ato foi uma Loucura capaz de impedi-lo à Cegueira auto-infligida e ao furioso Exílio.

 

13. DE SOMNIIS d) Sequentia

        APRENDE firmemente, ó meu Filho, que a verdadeira Vontade não pode errar; pois é o teu Curso decretado no Céu, em cuja Ordem há Perfeição.

        UM Sonho de Horror é portanto o mais sério de todos os Avisos; pois significa que tua Vontade, que é teu Ente em seu Aspecto Dinâmico, está em Aflição e Perigo. Assim, tu deves instantaneamente procurar a Causa daquele Conflito subconsciente, e destruir teu Inimigo por completo, usando tua Mente Consciente como um Aliado daquela verdadeira Vontade. Se, então, existe um Traidor em tua Mente Consciente, quanto mais necessário será para ti o erguer-te e extirpá-lo antes que ele te infeccione completamente com a Divisão de Propósito que é a primeira Brecha naquela Fortaleza da Alma cuja Queda a levaria à Ruína informe cujo Nome é Choronzon!

 

14. DE SOMNIIS e) Clavicula

        O SONHO agradável é portanto um Espetáculo representando a Satisfação da Verdadeira Vontade, e o Pesadelo é uma Batalha simbólica entre a Vontade e seus Assaltantes em ti mesmo. Mas pode haver somente uma verdadeira Vontade, tal como pode haver apenas um Movimento correto a qualquer momento em qualquer Corpo, não importa de quantas Forças aquele Movimento seja a Resultante. Busca portanto esta Vontade, e conjuga com ela teu Ente consciente; pois isto é o que está escrito no Livro da Lei: "tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade. Faze aquilo, e nenhum outro dirá não." Tu vês, ó meu Filho, que toda Oposição consciente à tua Vontade, quer por Ignorância, quer por Obstinação, quer por Medo de outros, pode no Fim ameaçar mesmo teu verdadeiro Ente, e conduzir tua Estrela à Desastre.

        E esta é a verdadeira Chave dos Sonhos; sê diligente em seu Uso, e abre com ela as Câmaras secretas do teu Coração.

 

15. DE VIA PER EMPYRAEUM

        QUANTO às tuas Viagens no Corpo de Luz, ou Jornadas e Visões Astrais assim-chamadas, grava esta Sabedoria em teu Coração, ó meu Filho: que nesta Prática, quer as coisas vistas e ouvidas sejam Verdade e Realidade, quer sejam Fantasmas na Mente, existe este supremo Valor Mágico, a saber: Desde que a Direção de tais Jornadas é conscientemente comandada, pelo verdadeiro Ente, uma vez que sem Aquele nenhuma Invocação seria possível, nós temos aí uma Cooperação ou Aliança entre o Ente Interno e o Ente Externo, e assim uma Consecução, pelo menos parcial, da Grande Obra.

        E por isto é Confusão ou Terror em qualquer tal Prática um Erro realmente temível, causando Obsessão (que é uma Divisão temporária, e às vezes até permanente, na Personalidade) ou Insanidade, e portanto uma Derrota mui fatal e perniciosa, uma Entrega da Alma a Choronzon.

 

16. DE CULTU

        AGORA, ó meu Filho, para que tu estejas bem guardado contra teus Inimigos fantasmais, trabalha constantemente pelos Meios prescritos em nossos Santos Livros.

        Não neglicencies jamais as quádruplas Adorações do Sol em suas quatro Estações, pois desta forma tu afirmas teu Lugar na natureza e suas Harmonias.

        Não negligencies a Execução do Ritual do Pentagrama, e a Assunção da Forma de Hoor-pa-Kraat.

        Não negligencies o Milagre diário da Missa, quer pelo rito da Igreja Católica Gnóstica, quer por aquele da Fênix.

        Não neglicencies a execução da Missa do Espírito Santo, como a Natureza Mesma te incita.

        Viaja também no Empíreo em teu Corpo de Luz, buscando sempre Habitações mais ígneas e mais lúcidas.

        Por último, exercita constantemente os Oito Membros de Yoga. E assim tu chegarás ao Fim.

 

17. DE CLAVICULA SOMNIORUM

        E AGORA concernente à Meditação, deixa-me desvelar-te mais completamente ainda o Mistério da Chave de Sonhos e Fantasias.

        Aprende primeiro que tal como o Pensamento da Mente se interpõe à Alma, e impede a Manifestação desta no Consciente, assim também a grosseira Vontade física é a Criadora dos Sonhos dos Homens comuns. E tal como na Meditação tu destrois todo Pensamento acasalando-o com o seu Oposto, assim também tu deves limpar-te por uma completa e perfeita Satisfação daquela Vontade corporal no Caminho de Castidade e Santidade que te foi revelado em tua Iniciação.

        Este Silêncio corporal interno sendo conseguido, pode ser que a Verdadeira Vontade fale em Verdadeiros Sonhos; pois está escrito que Ele dá ao Seu amado durante o Sono.

        Prepara-te portanto neste Caminho, como um bom Cavaleiro deve fazer.

 

18. DE SOMNO LUCIDO

        AGORA aprende também isto, que no Fim daquele Caminho secreto há um Jardim onde está uma Casa de Repouso preparada para ti.

        Pois àquele cujas Necessidades físicas (de qualquer tipo) não estão verdadeiramente satisfeitas vem um Sono físico ou lunar destinado a refrescar e recreiar por Limpeza e Repouso; mas àquele que está fisicamente puro o Senhor outorga um Sono Solar ou lúcido, em que se movem Imagens de pura Luz formadas pela Verdadeira Vontade. E isto é chamado pelos Qabalistas o Sono de Shiloam, e disto também Porfírio faz menção, e Cícero, com muitos outros Sábios de Antanho.

        Compara, ó meu Filho, com esta Doutrina aquela que te foi ensinada no Santuário da Gnose quanto à Morte do Justo; e aprende mais que estes são apenas Casos particulares de uma Fórmula Universal.

 

19. DE VENENIS

        MEU Filho, se tu jejuares por algum tempo virá a ti um segundo Estado Fisiológico em que existe um Deleite passivo e equânime, sem Vontade; um Contentamento de Fraqueza, com uma Sensação de Pureza e de Leveza. E isto é porque o Sangue absorveu, em sua Necessidade de Nutrição, todos os Elementos estranhos. Assim também é o Caso da Mente que não se alimentou de Pensamento. Considera a Existência ruminante e plácida de Pessoas que lêem pouco, que estão removidas da Luta mundana por alguma modesta Propriedade de pouco Valor, solidamente empatada, e que por Idade e Ambiente estão livres de Paixão. Tais Pessoas vivem, de acordo com sua própria Natureza, sem Desejo, e elas não opõem qualquer Resistência às Operações do Tempo. Tais são chamadas felizes; e em seu Caminho de Vida Vegetativa assim é; pois elas estão livres de qualquer Veneno.

 

20. DE MOTU VITAE

        APRENDE portanto, ó meu Filho, que todos os Fenômenos são o resultado de Conflito, tal qual o Universo mesmo é um Nada expressado como a Diferença entre duas Igualdades; ou, se quiseres, como o Divórcio de Nuit e Hadit. Assim, pois, todo Casamento dissolve um Complexo mais material, e cria outro menos material; e este é o nosso Caminho de Amor, levantando-se sempre de Êxtase a Êxtase. Portanto, toda Grande Violência, quer dizer, toda Consciência, é o Orgasmo Espiritual de uma Paixão entre dois Opostos mais baixos e mais grosseiros. Assim, Luz e Calor resultam do Casamento de Hidrogênio e Oxigênio, Amor daquele de Homem e Mulher, Dhyana ou Êxtase daquele do Ego e do não-Ego.

        Mas sê tu cônscio desta Tese corolária: que um ou dois tais Casamentos apenas destroem durante algum Tempo a Exacerbação de qualquer Complexo; desenraizar um tal é a Obra de longo Hábito e profunda Busca em Escuridão pelo Germe dele. Mas uma vez feito isto, aquele Complexo particular está destruído, ou sublimado, para sempre.

 

21. DE MORBIS SANGUINIS

        AGORA então compreende que toda Oposição ao Caminho da Natureza cria Violência. Se teu Sistema excretório não executa plenamente sua Função, entram Venenos no Sangue, e a Consciência é modificada pelos Conflitos ou Casamentos entre os Elementos heterogêneos. Assim, se o Fígado não for eficiente, temos Melancolia; se os Rins, Coma; se os Testículos ou Ovários, perda da própria Personalidade. Também, se envenenamos o sangue diretamente com Beladona, temos delírio veemente e furioso; com Haxixe, Visões fantásticas e enormes; com Mescalina, Êxtase de cor e outros mais; com diversos Germes de Doença, Distúrbios de Consciência variando com a Natureza do Germe. Também, com Éter, ganhamos o Poder de analisar a Consciência em seus Planos, e mesmo de descobrir a oculta Vontade e Julgamento sobre qualquer Questão; e assim com muitas outras coisas.

           Mas tudo isto são, no nosso Senso místico, Venenos; isto é, nós tomamos duas Coisas diversas e opostas, juntando-as de forma que elas são compelidas a unirem-se; e o Orgasmo de cada Casamento é um Êxtase, o mais baixo dissolvendo-se no mais alto.

 

22. DE CURSU AMORIS

        EU continuo então, ó meu Filho, e reitero que esta Fórmula é geral na Natureza inteira. E tu notarás que através de repetidos Casamentos vem Tolerância, de forma que o Êxtase não mais aparece. Assim, seu meio grão de Morfina, que a princípio lhe abria as Portas do Céu, de nada vale ao auto-envenenador após um Ano de Prática diária. Também o Amante não encontra mais Alegria em União com sua Amante, tão cedo a Atração original entre eles é satisfeita por repetidas Conjunções. Pois esta Atração é um Antagonismo; e quanto maior a Antinomia, mais forte a Pujança do Magnetismo, e a Quantidade de Energia liberada pelo Coito. Assim, na União de Semelhantes, como a de Halógenos uns com os outros, não existe grande Paixão ou Força explosiva; e o Amor entre duas Pessoas de Semelhante Caráter e Gosto é plácido, e sem Transmutação a Planos mais elevados.

 

23. DE NUPTIIS MYSTICIS

        Ó MEU Filho, quão maravilhosa é a Sabedoria desta Lei de Amor! Quão vastos os inavegados oceanos de alegria diante da Proa do teu Barco! Entretanto, aprende isto: que toda Oposição é em sua Natureza um Sofrimento, e a Alegria consiste na Destruição da Díada. Portanto, tu deves sempre procurar aquelas Coisas que te são venenosas, e isto no mais algo Grau, e faze-las tuas pelo Amor. Aquilo que repele, aquilo que desgosta, tu deves assimilar nesta Senda de Complecção. Porém, não descanses na Alegria da Destruição de todo Complexo em tua Natureza, mas avança àquele ultimal Casamento com o Universo cuja consumação te destruirá por completo, deixando somente aquele Nada que era antes no Princípio.

        Portanto, a Vida de Inação não é para ti; abster-se de Atividade não é o Caminho do Tao, mas sim a Intensificação e Universalização de cada Unidade de tua Energia em todo e cada Plano.

 

24. DE VOLUMPTATE POENARUM

        AVANÇA, ó meu Filho, ó Filho do Sol, regozijando-te em tua Força, como um Guerreiro, um Noivo, para tomares teu Prazer sobre a Terra, e em todo Palácio da Mente, movendo-te sempre do crasso ao sutil, do grosseiro ao fino. Vence toda Repulsa em teu Ser, subjuga toda Aversão. Assimila todo Veneno, pois apenas aí há Lucro. Busca pois constantemente conhecer o que é doloroso e apegar-te a isso, pois através da Dor vem verdadeiro Prazer. Aqueles que evitam a Dor física ou mental permanecem Homens medíocres, e não há Virtude neles. Porém, sê prevenido, para que não caias na Heresia que faz de Dor e de Auto-Sacrifício, por assim dizer, Subornos a um Deus corrupto, para assegurar algum futuro Prazer em algum Além imaginário. Nem também, por outro lado, temas destruir teus Complexos, pensando que assim perderás o Poder de criar Alegria pela Distinção entre eles. Mas em cada Casamento afirma ousadamente o Ardor espiritual do Orgasmo, fixando-o em algum Talismã, quer de Arte, de Magia, ou Teurgia.

 

25. DE VOLUNTATE ULTIMA

        NÃO digas que esta Senda é contra a Natureza, e que em Simplicidade de Satisfação das tuas Necessidades há Perfeição do teu Caminho. Pois para ti, que aspiraste, é tua Natureza executar a Grande Obra, e esta é a Dissolução final do Cosmo. Se bem que uma Pedra pareça jazer quieta e sem Cuidados no Cume de uma Montanha, no entanto, tem ela uma Natureza oculta, uma Tarefa Estupenda e Inefável: a saber, forçar seu Caminho ao Centro de Gravidade do Universo, e também queimar seus Elementos na Homogeneidade final da Matéria. Portanto, o Caminho de Quietude é apenas uma Ilusão da Ignorância. Quem quer que tu sejas neste instante, teu Destino é o que Eu te declarei; e tu vais mais firme no Verdadeiro Caminho quando, aceitando isto conscientemente como tua Vontade, tu mobilizas tuas Forças para nele moveres com pujança o teu Ser.

 

26. DE DIFFERENTIA RERUM

        MAS, ó meu Filho, se bem que tua ultimal Natureza seja Universal, tua Natureza imediata é Particular. Teu Caminho para o Centro não está orientado como aquele de qualquer outro Ser, e teus Elementos não são semelhantes, mas diversos, dos dele. Vergonha! não é a mais transcendental de todas as Sabedorias deste Cosmo que não há dois Seres iguais? Vê! este é o Segredo de toda Beleza, e torna o Amor não só possível mas necessário entre toda Coisa e qualquer outra Coisa. Portanto, para que em tua Ignorância tu não tomes algum falso Caminho, e divagues, tu deves aprender tua Natureza particular e própria em sua Relação com todas as outras. Pois se bem que seja Ilusão, é pela verdadeira Análise de Falsidades que nós nos tornamos capazes de destruí-las; tal como o Médico deve compreender a Doença do seu Paciente se há de escolher o Remédio apropriado. Agora portanto Eu te tornarei ainda mais claro o Valor de teus Sonhos e Fantasias, e dos espontâneos movimentos de teu Corpo e Mente, como Sintomas de tua particular Vontade, e te mostrarei como podes chegar à Interpretação deles.

 

27. DE VOLUNTATE TACITA

        TODOS os Distúrbios, ó meu Filho, são Quebras do Equilíbrio; e tal como teus Pensamentos, Palavras e Atos conscientes resultam do deslocamento da Vontade consciente, assim também acontece no Inconsciente. Em sua maior Parte, portanto, todos os Sonhos, Fantasias e Gestos representam aquela Vontade Subterrânea e subliminal; e se a Parte física daquela Vontade estiver insatisfeita, o Pronunciamento da Parte física predominará em todas aquelas Expressões automáticas. Nota pois que Modificações das Expressões automáticas resultam das Mudanças que tu fazes na Base consciente daquela Parte de tua Vontade em teus Experimentos com ela; e assim separa, como diz Trismegistus, o fino do grosseiro, o Fogo da Terra, ou, em outras palavras, atribui cada Efeito à sua verdadeira Causa. Busca portanto efetuar conscientemente uma perfeita Satisfação de toda Parte desta Base consciente, de maneira que os Distúrbios inconscientes sejam por fim trazidos ao Silêncio. Então o Resíduo será como que um Elixir clarificado e perfeito, um verdadeiro Símbolo daquela outra Vontade oculta que é o Vetor do teu Ente Mágico.

 

28. DE FORMULA SUMMA

        APRENDE além disto que teu Ser inclui o Universo inteiro do teu Conhecimento, de maneira que todo Acréscimo sobre todo e cada Plano é uma Expansão do teu Ser. Entretanto, a maior parte desse Universo é de Conhecimento geral, de forma que teu Ente está entretecido com outros Entes, salvo naquela Parte peculiar a ti Próprio. E à medida que tu cresces, também aquela Parte peculiar a ti se torna cada vez menor em Relação ao todo, até que, ao te tornares infinito, ela é uma Quantidade infinitesimal e negligenciável. Vê! quando o Todo é absorvido dentro do Eu, é como se o Eu fosse absorvido dentro do Todo; se duas coisas se tornam completa e indissoluvelmente Uma Coisa, não há mais Razão para Nomes, pois Nomes são dados para marcar uma Coisa como diversa de outra. E isto é aquilo que está escrito no Livro da Lei: Que não haja nenhuma diferença feita entre vós entre qualquer uma coisa & qualquer outra coisa; pois daí vem dor. Mas quem quer que valha nisto, seja ele o chefe de tudo!

 

29. DE VIA INERTIAE

        DO Caminho do Tao Eu já te escrevi, ó meu Filho, mas Eu devo te instruir mais nesta Doutrina de fazer tudo não fazendo nada. Primeiro Eu quero que compreendas que o Universo sendo, como Eu disse acima, uma Expressão de Zero sob a figura da Díada, sua Tendência contínua é aliviar aquela Tensão pelo Casamento de Contrários quando quer que estes são postos em Contato. Assim, tua verdadeira Natureza é uma Vontade ao Zero, ou uma Inércia, ou um Fazer Nada; e a Maneira de Fazer Nada é não opor qualquer Obstáculo ao livre Funcionamento dessa tua verdadeira Natureza. Considera a Carga Elétrica de uma Nuvem, cuja Vontade é descarregar-se na Terra, e assim liberar a tensão do seu Potencial. Faze isto por livre Condução, há Silêncio e Escuridão; opõe um Obstáculo: há Calor e Luz, e a Dilaceração daquilo que não permite livre Passagem à Corrente.

 

30. DE VIA LIBERTATIS

        NÃO julgues então que por Inação tu segues o Caminho do Tao; pois tua Natureza é Ação, e impedindo a Descarga do teu Potencial tu perpetuas e agravas a Tensão. Se tu não desimpedes a Natureza, ela te trará a Impedimento. Livra portanto toda Função de teu Corpo e de toda outra Parte de ti de acordo com sua verdadeira Vontade. Também é muito necessário que tu descubras em cada caso aquela verdadeira Vontade, pois tu nasceste em um Ambiente onde há muitas Vontades falsas e pervertidas, Tumores monstruosos, Parasitas, Coisas Daninhas são elas, aderindo a ti por Vício de Hereditariedade, ou do Meio, ou de mau Treino. E de todas essas Coisas as mais sutis e mais terríveis, Inimigos sem piedade, destrutivos de tua Vontade, e uma Ameaça e Tirania mesmo para teu Ente, são os Ideais e Padrões dos Deuses-Escravos: falsa Religião, falsa Ética, e até falsa Ciência.

 

31. DE LEGE MOTUS

        CONSIDERA, meu Filho, aquela palavra no Chamado ou Chave dos Trinta Aethyrs: "Contemplai a Face do vosso Deus, o Começo do Conforto, cujos olhos são o Brilho dos Céus, que vos proveu para o Governo da Terra e sua Variedade Inominável!" E novamente: "que não haja nenhuma Criatura sobre ela ou dentro dela a mesma. Todos os seus Membros, difiram eles em suas Qualidades, e não haja nenhuma Criatura igual a outra." Aqui também está a voz da verdadeira Ciência, gritando: Variação é a Chave da Evolução. E em terceiro vem a Arte, percebendo Beleza na Harmonia dos Diversos. Aprende então, ó meu Filho, que todas as Leis, todos os Sistemas, todos os Costumes, todos os Ideais e Padrões que tendem a produzir Uniformidade, estando em direta Oposição à Vontade da Natureza de mudar e de se desenvolver através de Variedade, são amaldiçoados. Luta com toda Pujança de tua Hombridade contra estas Forças, pois elas resistem a Mudança, que é Vida; e assim são da Morte.

 

32. DE LEGIBUS CONTRA MOTUM

        NÃO digas, em tua Pressa, que tais Estagnações são Unidade, mesmo como a última Vitória de tua livre Vontade é Unidade. Pois tua Vontade se move por livre Função, de acordo com sua Natureza particular, em direção àquele Fim da Dissolução de todas as Complexidades; e os Ideais e Padrões são Tentativas de te fazer empacar nesse Caminho. Se bem que para ti algum Ideal particular possa ser parte do teu Caminho, no entanto para teu Vizinho pode ser que assim não seja. Coloca todos os Homens a Cavalo; de fato tu aceleras o Soldado de Infantaria em seu Caminho; mas que fizeste ao Aviador? Tu deves ter Leis e Costumes simples para expressar a Vontade geral, e assim impedir a Tirania ou Violência de uns poucos; mas não multipliques essas Leis e esses Costumes! Agora então Eu te declararei aqui os Limites da Lei Civil sobre a Rocha da Lei de Télema.

 

33. DE NECESSITATE COMMUNI

        COMPREENDE antes de mais nada que os Perturbadores da Paz da Humanidade agem assim por Causa de sua Ignorância de suas Verdadeiras Vontades. Portanto, à Medida que esta minha Sabedoria aumenta entre os Homens, a falsa Vontade ao Crime se tornará constantemente mais rara. Também, o Exercício de Nossa Liberdade fará com que os Homens nasçam cada vez menos afligidos por aquele Distúrbio do Espírito que engendra essas falsas Vontades. Mas, enquanto à Espera dessa Perfeição, tu deves por Lei assegurar a todo e cada Homem um Meio de satisfazer suas Necessidades físicas e mentais, deixando-o livre para desenvolver qualquer superestrutura conforme a Vontade dele, e protegendo-o de quem quer que busque privá-lo destes Direitos vertebrais. Haverá portanto um Padrão de Satisfação, se bem que deverá variar em Detalhe com Raça, Clima e tais outras Condições. E esse Padrão estará baseado sobre uma ampla Interpretação de Fatos biológicos, fisiológicos, e outros semelhantes.

 

34. DE LIBERTATE CORPORIS

        NÃO haverá Propriedade em Carne humana. Todo Homem e toda Mulher tem Direito Irretorquível de entregar o Corpo ao Gozo de qualquer outra pessoa. O exercício deste Direito não será punido quer por Lei ou por Costume; não haverá Penalidade quer por Perda ou Diminuição de Liberdade, de Direitos, de Riqueza, ou de Posição Social; mas esta Franquia será respeitada por todos, visto que é o Direito da Vontade física. Por este mesmo motivo tu causarás completa Restrição e Punição de quem quer que busque limitar aquela Franquia para seu próprio Lucro pessoal, ou Desejo, ou Ideal. Tomo Homem e toda Mulher tem pleno direito quer de conceder quer de negar o Corpo, como a Vontade falar neste. Isto sendo feito Hábito, os males do Amor, que são muitos, estendendo-se a Distúrbio não só do Corpo como da Mente (e isto em Caminhos obscuros), pouco a pouco desaparecerão da Face de Sua Glória inenarrável.

 

35. DE LIBERTATE MENTIS

        NÃO haverá Propriedade em Pensamento Humano. Que cada qual pense como quiser sobre o Universo; mas que nenhum tente impor aquele Pensamento sobre outrem por qualquer Ameaça de Punição neste Mundo ou em qualquer outro Mundo. Considera, se bem que Eu te incito a Esforço em teu Caminho, no entanto é o Caminho de tua Vontade; e Eu nem sequer digo que é bom que tu te apresses nele, pois o Assunto inteiro jaz em tua Vontade, e te forçares contra tua Natureza seria um Obstáculo à tua Passagem. Mas se Eu te urjo a que corras este Curso como um Atleta, é porque Eu percebi em tua Natureza um grande Ardor e pujante Concentração naquela Vontade, e Eu te escrevo esta Carta sabendo bem que tu te alegrarás extremamente nela, desde que ela é uma Expressão de tua própria Vontade, e talvez uma Revelação desta; algo que tu buscas veementemente. Eu te comando portanto a que não permitas a nenhum que tiranize a outro em Pensamento, ou de qualquer outra forma blasfeme contra a grande Liberdade de Nosso Pai o Sol no Grande Cosmo, ou de seu Vice-rei no Pequeno.

 

36. DE LIBERTATE JUVENUM

        Ó tu que és a Criança de minhas próprias Entranhas, como te escreverei Eu sobre as Crianças? Pois aí está o Nó Górdio em nossa inteira Corda de Sabedoria, e não pode ser cortado com Espada; não, nem mesmo a de um maior que Alexandre-de-Dois-Chifres. E é um Equilíbrio como aquele do Ovo, e a violência de um Colombo apenas rachará a Casca tenra que devemos antes de mais nada preservar.

        Agora, como Sentinela daquela Fortaleza está um certo Paradoxo de Aplicação geral, e desta Maneira genérica Eu o declararei, para que seu Sentido particular possa de agora em diante iluminar-te a Mente. E este é o Paradoxo: que existem Laços que levam à Escravidão e Laços que levam à Liberdade. Todos nós somos amarrados com muitos Laços pelo nosso Ambiente, e em grande Parte somos nós que devemos decidir se tais Laços nos escravizarão ou nos emanciparão. E Eu te tornarei clara esta Tese por Meio de uma Ilustração.

 

37. DE VI PER DISCIPLINAM COLENDA

        CONSIDERA o Laço de um Clima frio, como isso faz do Homem um Escravo: ele deve obter Abrigo e Comida com grande Esforço. Entretanto, assim ele se fortalece contra os Elementos, e sua Força moral aumenta, de maneira que ele é Mestre de Homens que vivem em Terras de Sol onde as Necessidades físicas são satisfeitas sem Luta.

        Considera também aquele que deseja exceder em Velocidade, ou em Batalha, como ele se nega a Comida que deseja, e todos os Prazeres que lhe são naturais, colocando-se sob a Ordem severa de um Treinador. Assim por esta Servidão ele tem, por fim, sua Vontade.

        Portanto, um por natural, e outro por voluntária Restrição, chegaram cada qual a uma Liberdade maior. Isto é também uma Lei geral da Biologia, pois todo Desenvolvimento é uma Estruturação; isto é, uma Limitação e Especialização de um Protoplasma originalmente indeterminado, o qual pode portanto ser chamado livre, na definição de um Pedante.

 

38. DE ORDINE VERUM

        NO Corpo, toda Célula é subordinada ao Controle fisiológico geral, e nós que queremos aquele Controle não indagamos se cada Unidade individual daquela Estrutura é conscientemente feliz. Mas nós cuidamos de que cada uma execute sua Função, e o Fracasso de mesmo umas poucas Células, ou sua Revolta, pode envolver a Morte do Organismo inteiro. Entretanto, mesmo aqui a Queixa de uns poucos, que nós chamamos Dor, é um Aviso de Perigo geral. Muitas células cumprem seu Destino por Morte Rápida, e tal sendo a sua Função, elas de maneira alguma ressentem isto. Se a Hemoglobina resistisse ao Ataque do Oxigênio, o corpo pereceria, e nem por isto a Hemoglobina se salvaria. Agora então, ó meu Filho, considera a Fundo estas Coisas em tua Organização do Mundo sob a Lei de Télema. Pois todo indivíduo no Estado deve ser perfeito em sua Função, com Contentamento, respeitando sua Tarefa particular como santa e necessária, sem cobiçar a de outro. Pois apenas assim tu podes construir um Estado Livre, cuja Vontade dirigente estará voltada unicamente ao Bem-Estar de todos.

 

39. DE FUNDAMENTIS CIVITATIS

        NÃO digas, ó meu Filho, que neste Argumento Eu estabeleci limites à Liberdade individual. Pois cada Homem neste Estado que Eu proponho estará satisfazendo sua própria verdadeira Vontade por sua pronta Aquiescência na Ordem necessária ao Bem-Estar de todos, e portanto também dele mesmo. Mas vê bem que estabeleças um elevado Padrão de Satisfação, e que a cada um sobre após seu Trabalho, Lazer e Energia, de forma que, sua Vontade de Auto-Preservação estando satisfeita por sua Execução de sua Função no Estado, ele possa devotar o Restante de seus Poderes à Satisfação das outras Partes de sua Vontade. E como o Povo é freqüentemente ignorante, e não compreende o Prazer, faz com que seja instruído na Arte da Vida: como preparar Comida agradável e sadia, cada qual a seu Gosto; como fazer Roupas cada qual de acordo com sua Fantasia, com Variedade de Individualidade; e como praticar as múltiplas técnicas do Amor. Estas Coisas sendo antes de mais nada asseguradas, depois tu podes guiá-los aos Céus da Poesia e do Conto, da Música, da Pintura e da Escultura, e ao Estudo da Mente mesma, com sua insaciável Alegria de todo Conhecimento. Daí deixa que eles levantem vôo!

 

40. DE VOLUNTATE JUVENUM

        LONGA, ó meu Filho, foi esta Digressão no Caminho simples da minha Palavra concernente às Crianças; mas era muito necessário que tu compreendesses os Limites da verdadeira Liberdade. Pois não é a Vontade de nenhum Homem aquilo que termina na Ruína dele e na de seus Semelhantes; e não é Liberdade aquilo cujo Exercício o conduz à Escravidão. Tu podes portanto assumir que é sempre uma Parte essencial da Vontade de qualquer Criança chegar à Idade Adulta com Saúde; e seus Guardiões podem portanto evitar que ela ignorantemente aja em Desacordo com isto; sempre tomando o Cuidado de remover a Causa do Erro, a saber, Ignorância, como já foi dito. Tu podes também assumir que é Parte da Vontade da Criança treinar todas as Faculdades da sua Mente; e os Guardiões podem portanto combater a Inércia que impede o Desenvolvimento desta. Entretanto, aqui é necessário muita Cautela, e é melhor agir excitando e satisfazendo qualquer Curiosidade natural do que forçar Aplicação a Tarefas padronizadas, por mais óbvia que pareça a Necessidade disto.

 

41. DE MODO DISPUTANDI

        AGORA, neste Treino da Criança há uma Consideração extremamente importante, que Eu te explicarei como em Conformidade com nossa santa Experiência no Caminho da Verdade. E é esta, que desde que tudo que pode ser pensado não é verdadeiro, qualquer Asserção é, em algum Senso, falsa. Mesmo no Mar da Razão pura, nós podemos dizer que cada Afirmação é, em algum Senso, disputável. Portanto, em todo e cada Caso, mesmo os mais simples, não somente a Tese mas também o seu oposto devem ser ensinados à Criança, e a Decisão deve ser entregue ao Discernimento e ao Bom Senso dela, fortificados por Experiência. E esta prática desenvolverá o Poder de Raciocínio da Criança, e sua Confiança em si mesma, e seu Interesse em toda Ciência. Mas vigia antes de mais nada qualquer Tentativa de influenciar-lhe a Mente sobre qualquer ponto que não esteja no Âmbito de Fatos comprovados e indisputados. Lembra-te também, mesmo quando estiveres mais convencido quanto a isto, de que assim também estavam convencidos aqueles que deram Instrução ao jovem Copernicus. Reverencia o Desconhecido a quem presumes de comunicar teu Conhecimento; pois ele pode ser um maior que tu.

 

42. DE VOLUNTATE JUVENIS COGNOSCENDA

        É IMPORTANTE que tu compreendas tão cedo quanto possível qual é a verdadeira Vontade da Criança no Assunto da sua Carreira. Sê atento quanto a teus Ideais e Sonhos; pois a Criança é ela mesma, e não teu Joguete. Lembra-te da cômica Tragédia de Napoleão e do Rei de Roma; não construas uma Casa para um Bode selvagem, nem plantes uma Floresta para a Moradia de um Tubarão. Mas sê vigilante quanto a todo Sinal, consciente ou inconsciente, da Vontade da Criança, proporcionando-lhe então todo Ensejo de seguir o Caminho que ela assim indicar. Aprende isto: que a Criança, sendo jovem, se cansará rapidamente de todos os Caminhos falsos, não importa quão aprazíveis estes lhe sejam no Começo; mas do verdadeiro Caminho ela não se cansará. Este sendo assim revelado, tu podes prepará-lo perfeitamente para ela; pois nenhum homem pode manter todas as Estradas abertas para sempre. E a Criança tendo feito sua Escolha, explica-lhe como não podemos ir longe em qualquer Estrada se não tivermos um Conhecimento geral de Coisas aparentemente irrelevantes. E com isto a Criança compreenderá, e se dedicará sabiamente à sua Obra.

 

43. DE AURO RUBEO

        EU desejo que consideres, ó meu Filho, aquela Palavra de Publius Vergilius Maro, que foi o maior dos Magistas do seu Tempo: in medio tutissimus ibis. Isto também tem sido dito por muitos Homens sábios de outras Terras; e a santa Qabalah o confirma, colocando Tiphereth, que é o Homem, e a Beleza e a Harmonia das coisas, e o Ouro no Reino dos Metais, e o Sol entre os Planetas, no Centro da Árvore da Vida. Pois O Centro é o Ponto de Equilíbrio de todos os Vetores. Assim, se tu queres viver sabiamente, aprende que tu deves estabelecer esta relação de Equilíbrio com todas as Coisas, sem omitir nenhuma. Pois não há nada tão alheio à tua Natureza que não possa ser colocado em Relação harmoniosa com ela; e tua Estatura de Hombridade se agiganta à Proporção que tu alcanças a Perfeição nesta Arte. E não existe nada teu que não possa te prejudicar se este Equilíbrio não estiver verdadeiramente ajustado. Tu necessitas da Força do Universo inteiro para trabalhar com tua Vontade; mas esta Força deve ser distribuída em volta do Eixo dessa Vontade de forma que não haja qualquer tendência a Impedimento ou Desvio. E em meu Amor a ti Eu adornarei esta Tese com Exemplos a seguir.

 

44. DE SAPIENTIA IN RE SEXUALI

        CONSIDERA o Amor. Eis aqui uma Força destruidora e corrompedora pela qual muitos Homens se perderam: testemunha toda a História. No entanto, sem o Amor o Homem não seria Homem. Portanto teu tio Richard Wagner fez de nossa Doutrina uma Fábula Musical, em que vemos Amfortas, que se deixou seduzir, ferido além de qualquer Cura; Klingsor, que fugiu de um Perigo semelhante, expulso para sempre da Montanha de Salvação; e Parsifal, que não cedeu, capaz de exercer o verdadeiro Poder do Amor, e assim executar o Milagre da Redenção. Disto também Eu escrevi em meu Poema chamado Adonis. É a mesma Coisa com Comida e Bebida, com Exercício, com o Estudo mesmo; o Problema é sempre colocar o Apetite em reta Relação com a Vontade. Assim, tu podes jejuar ou festejar; não existe Regra senão aquela do Equilíbrio. E esta Doutrina é de geral Aceitação entre os melhores Homens; portanto a ti Eu prefiro comunicar mais cuidadosamente o outro Aspecto de minha Sabedoria, a saber: a Necessidade de estender constantemente tua Natureza a novos Parceiros sobre todo e cada plano de Existência, de forma que tu possas te tornar o perfeito Microcosmo, uma Imagem sem Falha de tudo quanto existe.

 

45. DE GRADIBUS AEQUIS SCIENTIAE

        EU digo em Verdade, ó meu Filho, que esta Extensão de tua Natureza não é Violação dela; pois é a Natureza de tua Natureza crescer continuamente. Agora, não existe parte do Conhecimento que te seja alheia; entretanto, mesmo o Conhecimento não é de valor a não ser que seja assimilado e coordenado em Compreensão. Cresce portanto fácil e espontaneamente, desenvolvendo todas as Partes igualmente, a fim de que não te tornes um Monstro. E se uma Coisa te tenta em demasia, equilibra-a por Devoção ao seu Oposto até que o Equilíbrio seja restabelecido. Mas não tentes crescer por Determinação súbita em direção às Coisas que estão longe de ti; se uma tal Coisa atrai teu Pensamento, constrói uma Ponte entre tu e ela, e toma firmemente o primeiro Passo sobre aquela Ponte. Eu explicarei isto. Interessas-te por acaso sobre os Motivos das Estrelas, e sobre seus Elementos, seu Tamanho e Peso? Então deves antes de mais nada adquirir Conhecimento de Coisas matemáticas, de Leis físicas e químicas. Assim, pois, para começar, a fim de que possas compreender claramente a Natureza de teu Trabalho inteiro, faz um Mapa de tua Mente, e estende os poderes dela do essencial ao externo, do próximo ao longínquo; sempre com Firmeza e grande Complecção, fazendo com que cada Elo de tua Corrente seja igual e perfeito.

 

46. DE VIRTUTE AUDENDI

        ENTRETANTO, isto Eu te comando com todo o meu Poder: Vive Perigosamente. Não foi esta a Palavra de teu Tio Friedrich Nietzsche? Teu pior Inimigo é a Inércia da Mente. As coisas que os Homens mais odeiam são as que os atingem no íntimo; e eles temem a Luz, e perseguem os Portadores de Tochas. Analisa pois a fundo todas as Idéias que os Homens temem; pois a Verdade dissolverá o Medo. Com justiça dizem os Homens que o Desconhecido é terrível; mas erroneamente temem eles que o Desconhecido se torne o Conhecido. Além disto, executa todos os Atos de que Gente Comum se arreceia, salvo onde já tenhas pleno Conhecimento; para que tu possas aprender Uso e Controle, sem caíres em Abuso e Escravidão. Pois o Covarde e o Temerário não prolongarão seus Dias. Toda Coisa tem seu reto Uso; e tu és grande na medida em que tens Uso das Coisas. Este é o Mistério de toda Arte Mágica, e teu Domínio sobre o Universo. Entretanto, se tu hás de errar, sendo humano, erra antes por excesso de Coragem que por excesso de Cautela; pois é a Fundação da Honra do Homem que ele ousa muito. O que diz Quintus Horatius Flaccus na terceira Ode do seu Primeiro Livro? Morre de pé!

 

47. DE ARTE MENTIS COLENDI a) Mathematica

        AGORA, concernente à primeira Fundação de tua Mente Eu direi algo. Tu estudarás com Diligência a Matemática, porque assim te serão reveladas as Leis do teu próprio Raciocínio, e os Limites deste. Esta Ciência te manifesta tua Verdadeira Natureza com respeito ao Maquinismo pelo qual ela trabalha, e mostra em plena Nudez, sem Vestimenta de Personalidade ou Desejo, a Anatomia de teu Ente consciente. Ademais, assim tu podes compreender a Essência das Relações entre todas as Coisas, e a Natureza da Necessidade, e podes chegar ao Conhecimento da Forma. Pois a Matemática é como se fosse o derradeiro Véu diante da Imagem da Verdade, de forma que não há melhor Caminho que nossa Santa Qabalah, que analisa todas as Coisas, e as reduz a puro Número; e assim as Naturezas das Coisas não mais sendo coloridas e confundidas, elas podem ser reguladas e formuladas em Simplicidade pela Operação da Pura Razão, para teu grande Conforto no Trabalho da nossa Arte Transcendental, através da qual os Muitos se tornam Um.

 

48. SEQUITUR b) Classica

        MEU filho, não negligencies de forma alguma o estudo dos Escritos da Antiguidade, e isto na Língua original. Pois desta maneira tu descobrirás a História da Estrutura da tua Mente; quer dizer, a Natureza desta considerada como o último Termo em uma Seqüência de Causas e Efeitos. Pois tua Mente foi construída destes Elementos, de forma que nestes Livros tu podes trazer à Luz tuas próprias Memórias subconscientes. E tua Memória é como se fosse o Cimento na Casa da tua Mente, sem o qual não há Coesão ou Individualidade possível, este estado sendo por isto chamado Demência. E esses livros tem durado e se tornado famosos porque são os Frutos de antigas Árvores das quais tu és diretamente o Herdeiro. Razão porque (digo Eu) eles são mais verdadeiramente germanos à tua própria Natureza que Livros de Rebentos Colaterais teus contemporâneos, ainda quando estes sejam em si mesmo melhores e mais sábios. Sim, ó meu Filho, esses Escritos clássicos tu podes estudar para chegares à verdadeira Compreensão de tua própria Natureza, e daquela do Universo inteiro, na dimensão do Tempo; tal como a Matemática te declara isto na dimensão do Espaço: isto é, de Extensão. Além disto, através deste Estudo a Criança compreenderá a Fundação das Maneiras; as quais, como diz um dos Filhos da Sabedoria, fazem o Homem.

 

49. SEQUITUR c) Scientifica

        DESDE que Tempo e Espaço são as condições da Mente, estes dois Estudos são fundamentais. Entretanto, ainda resta a Causalidade, que é a Raiz das Ações e Reações da Natureza. Isto também tu buscarás ardentemente, para que possas compreender a Variedade do Universo, sua Harmonia e sua Beleza, com a Ciência daquilo que o compele. Entretanto, esta não é igual às duas outras no Poder de te revelar a ti mesmo; e sua principal Utilidade é te instruir no verdadeiro Método do Progresso em Conhecimento; que é, fundamentalmente, a Observação do Semelhante e do Dessemelhante. Também, esta despertará em ti o Êxtase de Maravilha; e te trará a uma reta Compreensão da Arte Mágica. Pois nossa Magia é apenas um dos Poderes que jazem dentro de nós latentes e ainda não analisados; e é pelo Método da Ciência que a Magia deve se tornar clara e de Uso ao Homem. Não é isto uma Dádiva sem Preço, o Fruto de uma Árvore não só de Ciência mas de Vida? Pois existe aquilo no Homem que é Deus, e Também aquilo que é Pó; e pela nossa Magia nós faremos destes dois uma só Carne, para a Obtenção do Império do Universo.

 

50. DE MODO QUO OPERAT LEX MAGICA

        PRESTA Atenção, ó meu Filho, enquanto Eu te exponho a verdadeira Doutrina da Magia. Toda Força age, na devida Proporção, sobre todas as Coisas com as quais está relacionada. Assim, uma Floresta incendiada causa Mudança Química por Combustão, e comunica Calor e Movimento ao Ar em volta dela pela Operação de Leis físicas, e excita Pensamento e Emoção no Homem que ela impressiona através dos seus Órgãos de Percepção. Considera (mesmo que seja apenas uma Lenda) a Queda da Maçã de Isaac Newton, seu Efeito sobre os Destinos Espirituais da Humanidade. Considera também que nenhuma Força chega jamais ao Fim de seu Trabalho; o Ar movido por meu Alento é um Distúrbio ou Mudança de Equilíbrio que não pode ser completamente compensada e reduzida a Nada, se bem que os Aeons sejam infindáveis. Quem então negará a Possibilidade da Magia? Bem disse Frazer, o sapientíssimo Doutor do Colégio da Santa Trindade na Universidade de Cambridge, que Ciência era apenas o Nome da Magia que não falhava em seu Efeito tencionado.

 

51. DE MACHINA MAGICA

        VÊ! Eu exerço minha Vontade, e minha Pena se move sobre o Papel, porque minha Vontade misteriosamente tem Poder sobre os Músculos do meu Braço, e estes trabalham com Vantagem mecânica contra a Inércia da Pena. Eu não posso quebrar a Parede que me confronta, porque Eu estou longe demais para me colocar em Relação mecânica com ela; ou a Parede ao meu lado, porque Eu não sou suficientemente forte para sobrepujar sua Inércia. Para vencer aquela Batalha Eu devo chamar Tempo e Picareta em meu Auxílio. Mas como poderia Eu retardar o Movimento da Terra no Espaço? Também Eu sou Parte do seu Momentum. No entanto, cada movimento de minha Pena afeta aquele Movimento, mudando-lhe o Equilíbrio. O Problema de todo Ato de Magia é então este: exercer uma Vontade, suficientemente poderosa para causar o Efeito requerido, através de um Mênstruo ou Meio de Comunicação. Pela comum Compreensão da palavra Magia, nós excluímos os Meios que são geralmente conhecidos e compreendidos. Agora então, ó meu Filho, Eu te declararei primeiro a Natureza do Poder, e depois aquela do Meio.

 

52. DE HARMONIA ANIMAE CUM CORPORE

        TODAS as Coisas estão entrelaçadas. O mais espiritual Pensamento em tua Alma (Eu falo como um Tolo) é também uma materialíssima Mudança no Sangue ou no Cérebro. Cólera torna o sangue ácido; Ódio envenena o Leite da Mãe; tal como Eu já mostrei em reverso, como a Perturbação de uma Função física altera os estados de Consciência. Agora, ninguém duvida do Poder da Vontade do Homem, quer seja o Amor dele que engendra Prole ou causa Guerras onde muitos são mortos, quer seja a Eloqüência dele que move uma Multidão, ou a Vaidade dele que destrói um Povo. Apenas, em todos tais Casos nós compreendemos como a Natureza trabalha, através de Leis conhecidas, físicas ou psíquicas. Isto é, existe uma Condição de Equilíbrio instável, de forma que uma Máquina põe outra em Movimento tão cedo ocorra o primeiro Distúrbio. Portanto, não é correto considerarmos toda Conseqüência de uma Vontade como um Efeito desta. Sem a Revolução não poderia ter havido nenhum grande Efeito da Vontade de Napoleão; além de que, a Vontade dele foi por fim quebrada, para a Infelicidade presente (como parece a muitos além de mim) da Humanidade. Esta Magia, portanto, depende bastante da Arte de colocar muitas outras Vontades em Movimento simpático; e o maior dos Magos pode não ser o mais bem sucedido — em uma Concepção estreita de um Limite de Tempo. Ele pode necessitar muitos Golpes para quebrar sua Parede, se aquela é forte, enquanto uma Criança pode derrubar uma que está prestes a ruir.

 

53. DE MYSTERIO PRUDENTIAE

        CONTEMPLA agora a Natureza, como Ela é pródiga de suas Forças! A evidente Vontade de toda Bolota é se tornar um Carvalho; no entanto, quase todas fracassam nessa Vontade. Portanto, um Segredo da Magia é a Economia da tua Força; não executar Ato algum a não ser que estejas seguro de seu Efeito. E se todo Ato tem um Efeito em todo e cada Plano, como podes fazer isto se não estiveres em comunicação com todos os Planos? Por este motivo tu deves conhecer por completo não só teu Corpo e tua Mente, mas também teu Corpo de Luz e todos os seus Princípios mais sutis. Mas Eu quero que tu consideres mais especialmente os Poderes que tens dentro de ti que são certamente capazes de grandes Efeitos, e que no entanto são constantemente desperdiçados. Considera pois se esses Poderes, frustrados em seu Fito sobre um Plano, não poderiam ser voltados a um Propósito elevado e a um Sucesso seguro sobre outro plano. Pois cem Bolotas, retamente plantadas em Condições apropriadas para seu verdadeiro Crescimento, tornar-se-ão cem Carvalhos; enquanto de outra forma elas farão apenas uma Refeição para um Suíno, e sua Natureza sutil será completamente perdida. Aprende, portanto, ó meu Filho, este mistério da Economia, e aplica-o fielmente e com Diligência em teu Trabalho.

54. DE ARTE ALCHEMICA

        AQUI então Eu devo escrever sobre Talismãs para tua Instrução. Sabe primeiro que há certos Veículos apropriados para a Encarnação da Vontade. Eu dou como exemplo o Papel, onde por tua Arte tu escreves uma Representação simbólica de tua Vontade, de forma que quando tu a vês novamente, tu te lembras daquela Vontade; ou pode ser que um outro, lendo isso, seja movido a obedecer àquela Vontade. Aqui pois está um Caso de Encarnação e Assunção, o qual, antes de ser compreendido, era retamente considerado Grimoria ou Magia. Também, tua Vontade de viver te faz plantar Trigo, que, em sua devida Estação sendo comido, é novamente transmutado em Vontade. Assim, tu podes de muitos Modos impressionar qualquer Vontade particular sobre a Substância apropriada, de forma que por reto Uso tu chegas por fim à Consecução. Tão geral é esta Fórmula, em verdade, que todas as Ações conscientes podem ser incluídas em seu Âmbito. Existe também o reverso, como quando Objetos externos criam Apetite, a Satisfação do qual novamente reage sobre o Plano físico. Louva portanto a Maravilha do Mistério da Natureza, que sobe e desce com cada Alento, de forma que não existe Parte alguma que não seja misticamente Comungante com o Todo.

 

55. DE ARCANO SUBTILISSIMO

        Ó MEU Filho, existe aquilo dentro de ti que tem uma Potência maravilhosa, que é por sua própria Natureza a Encarnação da tua Vontade, mui pronto a receber o Selo desta. Ali jazem ocultos todos os Poderes, todas as memórias, mais do que tu tens dez mil vezes! Aprende então a retirar daquela grande Tesouraria a Jóia da qual tu tiveres no presente qualquer Necessidade. Pois todas as coisas que são possíveis à tua Natureza já estão ocultas dentro de ti; e tu necessitas apenas nomeá-las, e traze-las de volta à Luz da tua Consciência. Não desperdices portanto este Ouro teu, mas empata-o na Usura mais frutuosa. Agora, da Arte e Técnica deste santíssimo Mistério Eu não escrevo, por um Motivo que tu já conheces. Além disto, neste Assunto tu aprenderás melhor por tua própria Experiência, e tua Observação em verdadeira Ciência te guiará. Pois este Segredo é ainda da Magia, e oculto; de maneira que Eu não sei com certeza se tua Vontade jaz na Direção do meu Caminho ou não.

 

56. DE MENSTRUO ARTIS

        MAS quanto ao Meio por cuja sensitiva Natureza nossa Força Mágica é transmitida ao Objeto do nosso Trabalho, não duvides. Pois já em Outras Galáxias de Física alguns foram compelidos a postular um Éter completamente hipotético para explicar os Fenômenos de Luz, Eletricidade, e outros semelhantes; nem exige nenhum Homem uma Demonstração da Existência daquele Éter, mais que sua Conformidade com a Lei geral. Tu portanto, Criador e Transmissor de tua própria Energia, não necessitas perguntar se por este ou se por algum outro Meio tu executas tua Obra. Entretanto Eu não sei por que esse Éter que os Matemáticos e os Físicos imaginaram, e no entanto foram incapazes de definir, sua Natureza estando além da Razão, não possa ser a mesma Luz Astral, ou Mênstruo Plástico, ou Aub, Aud, Aur (estes três sendo uma Trindade) de que nossos próprios sábios tem falado. E esta Meditação pode resultar em muito Conhecimento físico, o que é bom, pois aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo, e o Estudo de qualquer Lei leva à compreensão de toda Lei. Assim podes aprender no Fim que não existe Lei além de Faze o que tu queres.

 

57. DE NECESSITATE VOLUNTATIS

        E COMO então (dizes tu?) reconciliarei esta Arte Mágica com aquele Caminho do Tao que realiza todas as Coisas fazendo Nada? Mas isto Eu já te declarei em Parte, mostrando que tu não podes praticar a Magia a não ser que seja tua Natureza praticar a Magia, e assim o verdadeiro Nada para ti. Pois fazer Nada significa não interferir com Coisa alguma, de forma que, para um Magista, não praticar a Magia é cometer Violência, contra si mesmo. Entretanto, aprende ainda que toda Ação é em algum Senso Magia, sendo uma parte essencial daquele Grande Trabalho Mágico que nós chamamos a Natureza. Então tu não tens Livre Arbítrio? Em verdade, tu o disseste. No entanto, ainda assim é teu necessário Destino agir com aquele Livre Arbítrio. Tu não podes fazer nada salvo em acordo com aquela Natureza tua e de todas as Coisas, e todo Fenômeno é a Resultante da Totalidade das Forças: Amén. Então tu não necessitas pensar, nem te esforçares? Dizes bem; porém, não és tu compelido a Pensamento e Esforço no Caminho da Natureza? Sim, Eu, teu Pai, trabalho para ti com solicitude, e também Eu rio de tuas Perplexidades; pois assim foi preordenado que Eu fizesse, por Mim, desde o Princípio.

 

58. DE COMOEDIA UNIVERSA, QUAE DICITUR PAN

        ASSIM, pois, ó meu Filho, considera-te feliz quando compreendes todas estas Coisas, sendo um daqueles Entes (ou Acontecentes) que nós chamamos Filósofos. Tudo é um infindável Jogo de Amor em que Nossa Senhora Nuit e Seu Senhor Hadit se regozijam; e toda Parte do Jogo é Jogo. Toda Dor não é mais que um Molho picante no Prato do Prazer; pois foi a Natureza do Universo que concebeu este eterno Banquete de Alegria. E aquele que não compreende isto é necessário como Ingrediente, tal qual tu mesmo; quererias tu mudar tudo, e estragar o Quitute? És tu o Mestre-Cozinheiro? Sim, pois teu Paladar tem se desenvolvido com teu grande Contato com a Comida da Experiência; portanto tu és um daqueles que se regozijam. Também, é tua Natureza, como é a minha, ó meu Filho, querer que todos os Homens partilhem do nosso Prazer e Alegria; por isto Eu proclamei a minha Lei ao Homem, e tu continuas naquela Obra de Regozijo.

 

59. DE CAECITIA HOMINUM

        APRENDE também de minha Sabedoria que esta Visão do Cosmo sobre a qual Eu aqui te escrevi não está aberta à tua Vista o Tempo todo; pois naquela Visão toda Vontade está cumprida. Tu vês o Universo como Nenhum, e Como Um, e como Muitos, e tu vês o Intercâmbio desses; e com isso estás tu (que não és mais tu) contente. Pois em uma Fase tu também és Nenhum, em outra Um, e na terceira uma Parte organizada e necessária da grande Estrutura; de modo que não existe mais Conflito em teu inteiro Vir-a-Ser. Mas agora Eu farei Luz para teus Olhos neste Assunto enquanto tu tateias, perguntando: mas daqueles que não vêem isto, que dizes tu, ó meu Pai? Mas naquela Visão tu não falas assim, meu Filho! Aprende pois de mim o Mistério Secreto da Ilusão, e como ela trabalha, e da Santa Lei que é a sua Natureza, e da tua Ação ali; pois isto é um Arcano da Sabedoria dos Magos, e próprio para ti que habitas na Terra da Compreensão.

 

60. ALLEGORIA DE CAISSA

        CONSIDERA como um exemplo o Jogo e Esporte do Xadrez, que é um Passatempo do Homem, digno de fazê-lo pensar; entretanto, de forma alguma necessário à sua Vida, de maneira que ele afasta de si tabuleiro e Peças ao mínimo Chamado daquilo que verdadeiramente o interessa. Assim, para ele este Jogo é como se fosse uma Ilusão. Mas enquanto ele joga o Jogo, ele obedece às Regras deste, se bem que estas sejam um Artifício, e de forma alguma necessárias à Natureza do Jogador;